Já disse que odeio falar sobre meus problemas? Mas já que odeio psicólogos (acreditem, não odeio só por ouvir falar, já passei longos anos em terapia), tenho que cutucar minhas próprias feridas e tratá-las para ficar melhor. Estou rabugenta assim porque o assunto é um dos (se não o único) que eu evito ao máximo falar, e os únicos que sabem sobre são meu pai, meu irmão e alguns amigos - sugiro que pra quem pensa que tenho vários, volte no segundo post e leia sobre as minhas amizades e minha super popularidade.
Ok, chega de enrolar. Não sei como tornar isso bonitinho, porque não é. Não sei como tentar tornar engraçado, porque nem piada de humor negro da pra fazer. E também não sei como amaciar as coisas, porque para mim veio como pedras e tive que lidar com os machucados por um ano inteiro da melhor forma que pude. Então, vou simplesmente dizer.
Eu vejo minha vida até agora nos meus 17 anos por cores: antes da separação era tudo rosa, colorido, brilhante. Eu era popular, líder da turma, todos gostavam de mim - inclusive os professores - e aqueles que não gostavam me tratavam com educação, porque nunca dei motivos para serem grossos comigo. Também é importante ressaltar que todas as minhas decisões, o que eu pensava e vivia era de acordo com a minha idade: 11, 12 anos. Dai, veio a separação. Não foi nada amigável, até hoje não é. Com 12 anos me mandaram escolher entre as duas pessoas mais importantes do meu mundo, quando o que eu queria era os dois. No fim das contas, escolhi morar com meu pai porque ele é a calma encarnada em pessoa, e eu sou muito igual minha mãe: sou estourada, teimosa, briguenta, herdei o gênio forte dela; e sabia que duas pessoas iguais não se bicam facilmente. Aliás, creio que esse é um dos motivos pelo qual ela tem uma profunda mágoa comigo e com meu irmão: por não a termos escolhido. Provavelmente se tiver mães que leem meu blog, 99% vão ficar do lado dela, mas espero que 1% possa entender o porque eu escolhi a calmaria em vez da briga.
A partir da separação, minha vida, composta por cores berrantes e variadas, virou tremendamente desbotada. Tive de mudar de colégio em pleno Ensino Fundamental, e na sétima série entrei no Bom Conselho. Deprimida, sem conhecer absolutamente ninguém e cheia de preconceitos por querer ficar na minha escola pública com meus queridos amigos legais do que numa particular cheia de bundinhas frescas, não fui exatamente social. Como podem imaginar, foi ai que comecei a formar uma pequena bolha de proteção. Naquele ano eu ia por obrigação da justiça ver um psicólogo e falar sobre a separação (como estava me sentindo e coisas do tipo). Cada sessão fazia-me querer muros altos e intransponíveis em volta de mim mesma. Óbvio que quando descobri que não precisava mais ir, matei as consultas até meu pai entender que eu não iria mais.
Oitava série chegou, mas não pensem que no colégio as coisas viraram um mar de rosas. Neim, continuou a mesma bosta. Mas agora, além de eu ter uma bagagem boa de livros que sempre gostei de ler, também tinha outra cabeça, e por isso minhas amizades com gente mais velha aumentaram. Comecei a notar que as conversas com meus colegas normalmente me entediavam ou os entediavam, porque pensávamos diferente. Enfim, pra pular um pouco, quando chegou a formatura eu disse para meu pai que queria de todo e qualquer jeito sair do Bom Conselho, e finalmente mudei pro Integrado UPF, onde estou fazendo o Ensino Médio. Para matar possível curiosidade, a situação não mudou em relação a amizades. No primeiro ano tive depressão, me recuperei e apesar de toda e qualquer adversidade, ficou melhor levantar de manhã.
Desculpem-me. Eu encobri o verdadeiro problema aqui. Tinha postado, provavelmente muitas pessoas leram, mas creio que o que eu precisava era tirar pra fora mesmo e não há razão pra ficar aqui.
Já não sei se quero fazer medicina, enfermagem ou biologia marinha. Tenho um ano inteiro para decidir isso, e creio que já provei a mim mesma que sou capaz, e que não sou quem me disseram que eu era. Sabem, as vezes me pergunto se eu era uma fracassada. Talvez. Mas com certeza, agora, não sou. Agora eu tenho 17 anos (11 meses só para 18 ein!), sou terceiranista, estou planejando as universidades onde vou prestar vestibular e procurando lugares onde eu possa morar sozinha. Sou forte, capaz e corajosa. Sou tão eu como jamais consegui ser. Sou Luana Sbeghen.
E mãe? Eu te perdoo, assim como espero que me perdoe pelas mágoas que lhe causei sem querer. Depois de um ano e algumas semanas, estou indo te visitar hoje. Provavelmente com as pernas tremendo, coração na mão e uma rota de fuga planejada e revisada, mas estou indo. Está na hora de seguir em frente e deixar o passado para trás.
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